— Não sei não, Lucas.
—Por que não, Mari? Vocês são como irmãs.
—Será mesmo? Nós talvez fôssemos como irmãs, mas depois dos últimos episódios não vai ser tão fácil me convencer de que esse laço ainda existe.
—Você não devia ser tão radical.
—E ela não devia ser tão covarde!
—O excessivo sentimento de culpa dela não necessariamente significa covardia.
—Ela e o fantasma da bailarina morta. Se ao menos fosse, sei lá, um cristal raríssimo, ou um jogo de porcelana de duzentos anos, mas uma bailarinazinha fubá com detalhezinhos em dourado? Fala sério.
—Você está com raiva, magoada, se sentindo injustiçada, sim. Mas pega leve.
—Lucas, meu avô morreu e eu não estava do lado dele. Você acha mesmo que só ela sabe o que é se sentir culpada? Tem meses que eu venho adiando uma visita a eles e agora acabou. Minha vida parece ter acabado. Meu avô, entende? Eu posso não mostrar o tanto que dói, mas não significa que eu sou “um ser cru e cruel, com radicalismo suficiente pra me desprover de qualquer tipo de sentimentos”. – Ela chorava de raiva.
—Eu sei que não, Mari, mas você tem que pensar no lado dela também. Não foi por mal. E se você continuar, como ela disse, com esse radicalismo todo, vai perder ela também. Assim como ta perdendo o Marcelo.
—Liçãozinha não, por favor… Pera um pouco, como é que você sabe do Marcelo?
—A questão é a seguinte: vocês duas estavam num dia ruim e um nada gerou esse raio de bagunça. Mas ela te ama e você a ama tanto quanto. Então eu sugiro que você peça desculpas a ela.
—Desculpas? Mas quem escutou o que eu escutei é que merece um pedido de desculpas, não o contrário.
—E no meio do fervor da sua raiva você escutou e guardou cada palavra que ela disse no fervor da raiva dela, mas será que em algum lugar da sua memória ficou guardado o que você disse a ela para ouvir o que ouviu?
Lucas se levantou, olhando uma ultima vez nos olhos de Mariana, e deixou a garota de lá, sentada de pernas cruzadas no pátio da faculdade.
Ela tentou relembrar daquele fatídico dia em que sua vida virou de ponta a cabeça e deixou um resquício de humildade iluminar suas idéias. E as palavras que saíram de sua boca ficaram ecoando em sua cabeça.
“Quer saber de uma coisa Lis? Você consegue ser tão insuportável que com certeza foi por isso que seu pai fugiu de casa, nem ele te aguentou!”
Os raios do pôr do sol iluminavam os joelhos esfolados da garota sentada no cume do morro gramado. Aquele era seu refúgio nos dias em que desejava para o mundo e descer. Lis tinha esses momentos. Os últimos dias não deram o melhor de si para que as coisas dessem certo para ela. As Três Marias estavam anos luz de distância uma da outra e isso a perturbava. Não se separavam desde o jardim de infância e agora eram completas estranhas uma a outra. Lis sentia que a culpa por isso era dela. A culpa é sempre dela, é o que pensa.
Quando tinha quatro anos, num dia de outono em que o vento varria tudo que cruzava seu caminho, anunciando a tempestade, Lis recebeu uma ordem de sua mãe para que fechasse as janelas da sala antes que a chuva caísse ou o vento quebrasse alguma coisa. Lis tomava seu chocolate quente e decidiu que não seria por mal esperar mais dois minutos, enquanto terminava de saborear sua bebida preferida em dias frios. Do lado de fora da casa, o vento decidiu que não seria por mal soprar um pouquinho mais forte na direção daquela casa que parecia de bonecas. As cortinas das janelas voejavam com furor, as flores lançavam suas pétalas ao ar como num redemoinho e, não por menos, o bibelô de estimação de Dona Clara, a bailarina russa de porcelana ganhada em seu décimo quinto aniversário, rodopiou com graciosidade direto ao chão.
Devido ao barulho feito pela porcelana ao colidir com o piso, Maria Elis deu um salto de onde estava e correu em direção ao vestíbulo. A pequena estremeceu dos pés à cabeça e a maior onda de culpa que jamais sentira antes tomou conta da sua alma. “Se eu tivesse fechado as janelas quando mamãe mandou isso não teria acontecido!”. O castigo de duas semanas sem brincar com Mariana e Ana Maria não foi suficiente para a garota se redimir do deslize. Desde então ela se considera responsável por tudo que acontece com as pessoas ao seu redor. Tudo de negativo.
Naquele fim de tarde não seria diferente. Ela e as amigas estavam brigadas, pela primeira vez em tantos anos. E por que não seria ela a culpada por isso também? Ela sabia que não tinha tratados as duas amigas como deveria. Era só isso que conseguia enxergar. Suas lágrimas de introspecção molhavam os joelhos machucados. A água salgada causava ardência nas pequenas feridas, enquanto o sol dava seus últimos acenos àquele dia que, para Lis, poderia nunca ter amanhecido.
Quem me conhece, provavelmente conhece também o meu Sofá Azul, de textos leves, poéticos e românticos. Digamos que aqui eu desço do meu confortável sofá e me sento para escrever em um lugar um pouco mais ousado, se é que eu posso chamar assim.
Já faz algum tempo que venho pensando em começar esse blog, mas fatores de certa forma importantes me fizeram adiar um “pouquinho”. Fatores do tipo “que raio de nome eu coloco nesse blog???”. “Marias e Retalhos” veio de um tipo de tempestade cerebral que eu fiz por alguns momentos procurando alguma coisa que definisse bem o que eu queria falar. E acredito eu que não teria escolha melhor para definir isso.
Esse blog não é exatamente para mulheres, mas sobre mulheres, sobre Marias.
Marias, porque, afinal, fomos, somos e sempre seremos mulheres, mulherzinhas, marias. Marias que vão com as outras, marias que vão sozinhas, marias que vão pelo lado errado porque pensam que é o certo, marias que tem medo do certo porque pensam que é errado, marias apaixonadas, marias de corações quebrados, marias estonteantemente felizes, marias de TPM, marias sem rumo, marias com rumo traçado, marias chorosas, marias que falam, marias que calam, marias de toda as idades, marias que abraçam o mundo, marias, Marias, mulherzinhas, mulheres!
Retalhos… os retalhos vieram da lembrança das colchas que a minha avó Maria (mesmo!) fazia. E veio bem a calhar, afinal, a idéia aqui é costurar os retalhos dos nossos sentimentos e pensamentos que nos permitem ser o que somos. Retalhos coloridos, pintados e bordados que, mesmo parecendo não combinar nadinha uns com os outros, juntam formam uma colcha bonita que só.
Sobre a idéia, bom, a idéia veio dessa fissura que eu estou descobrindo que tenho por comportamentos, relacionamentos e por mulheres! Porque nada mais incrível nesse mundo do que a mulher, nada mais misterioso, nada mais secreto, nada mais inatingível. E isso é tão instigante! E também porque eu me divirto quando o Sr. Namorado me pergunta coisas sobre esse mundo feminino que pra nós é tão banal e para ele (e toda a raça masculina) é alucinante entender. Então resolvi escrever por mim, por ele, e quem sabe pra ajudar os moçoilos e moçoilas a descobrir alguma coisinha. Divirtam-se!
Prazer, Maria! (uma delas)